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tanto para se querer
Posted in Cultura, arte e educação | No Comments »Entrar no ano novo é como começar um ciclo, mas muitas vezes pode dar a sensação de que os Portais da Esperança foram, ou ainda estão sendo, abertos para as realizações. E por que será que almejamos tanto realizar? Daqui podemos encontrar respostas de toda ordem: psicanalítica, filosófica e até “chutométrica”. E uma delas poderia falar assim: “acho que desejo tanto fazer algo que isso se tornou uma obsessão para mim”. Pode ser… Mas se for, é uma obsessão gostosa de se sentir, visto que a hora mais esperada por aqueles que semeiam é quando as flores já mostram toda a beleza e o esplendor da vida plantada.
Muitas coisas já foram plantadas e continuaremos a plantar, pois sabemos que a vida de um ser humano é se tornar uma árvore bem crescida quando toda a terra que ele espalhou estiver forte e sadia, solo pronto e fértil para que floresçam suas realizações. Mas tudo isso parece como chover no molhado, metáfora só entendida em sua plenitude quando se percebe o alcance de como nos repetimos em nossa limitação simbólica. Queremos ou buscamos sintetizar uma ideia mais ampla da qual, não raro, é possível filtrar outros significantes, os quais, mesmo aparecendo, podem se tornar insignificantes devido ao nosso método natural de descarte por irrelevância. Se eu dou importância a alguma coisa que pode gerar significado, justificado ou não, posso ver coisas que muitas vezes não estão tão aparentes. Agora, se eu não relevo alguma coisa que poderia gerar significado para mim, justificado ou não, eu estou construindo uma cerca repleta de arame farpado, cada vez mais robusta e inflexível, e assim eu acabarei ficando grosso e duro feito um poste.
Olha só outra tendência: sem perceber, mergulhamos no ‘eu’ e começamos a falar de si próprio, e “Narciso acha feio o que não é espelho”, metáfora caetaneana que nos ajuda a reduzir ao simples uma ideia tão ampla. Mais um exemplo do que falamos acima, e é somente por isso que não pretendo me repetir com uma metáfora qualquer conhecida; desejo apenas prosseguir criiando, dessa forma continuarei a estabelecer um elo com o mundo, e isso por si só também é uma metáfora, mas eu não vivo sem elas, como você pode ver, pois sinto que elas são o adubo natural eivado no mundo espiritual, que geralmente propicia árvores tão boas, frondosas e perfumadas quanto essas que se abrem aos pássaros a cada manhã.
Ja se disse que escrever é tirar um pedaço de si. Não vejo metáfora mais concludente, e por que não contundente, que esta. As razões, os motivos, que seja, são muitos. Só dependerão do contexto do qual se escolha extrair significado. e os vários contextos possíveis que temos à nossa disposição não podem significar uma simples síntese de problemas complexos, porém trazem consigo possibilidades inúmeras de escolha, a maior parte das quais entra seletivamente em processo de classificação e descarte, visto que estou sempre obrigado a escolher entre uma coisa e outra, conflito que cabe a cada um, a seu modo, resolver ao longo da existência.
Talvez isso tudo seja uma ceia indigesta para pensar logo no começo do ano: lidar com a realidade externa e interna e estabelecer limites e citérios de escolha, podendo antever sem erro que, ao longo do ano novo, teremos de nos deparar com situações complexas, pois de uma forma ou de outra, estamos sendo testados, seja para os crentes em Deus como para os cientes do processo biológico da seleção natural. As inúmeras maneiras de ver a vida e suas coisas não são excludentes mas complementares, haja vista que a humanidade me parece um corpo orgânico que continua a escrever a história de um grande Autor, que pensa, sente, deseje e crê do jeito que cada um quer. Então, o que você quer de bom para 2010? Mas não só pense em você, narcisicamente falando; pense no que você poderá agregar a esse organismo vivo, ao todo. Esta preocupação é a relevância sobre a qual falamos no início deste post. Para aquilo que se der importância, certamente germinará. É dessa colheita que estávamos falando. Feliz 2010!
